Algumas pessoas, passam, hoje em dia, uma grande quantidade de seu tempo na busca do equilíbrio interior. Seja entre as páginas dos títulos de autoajuda de qualquer livraria - os primeiros nas listas dos livros mais vendidos, sempre - seja por outros meios menos em conta, que podem incluir a visita a um terapeuta ou algumas aulas semanais de ioga.
O que me ajuda a descobrir os meus limites, os meus sonhos, e paradoxo visual, a realidade do mundo que nos cerca, é a fotografia. Isto pode acontecer dentro de um estúdio, na aparente limitação de um fundo infinito, ou em locações nos lugares mais distantes possíveis, na busca do fugaz equilíbrio que determina a beleza de uma imagem. É uma procura constante que me faz acordar, todos os dias, sentindo a mesma emoção da primeira foto que fiz, muitos anos atrás.
A beleza é fugaz, frágil. Às vezes, tênue como a passagem de um anjo, ou de um beijo, só descoberta depois que o instante aconteceu, visível em um fragmento de segundo apenas por quem acredita nela. Por quem a procura. Há quem diga que ela pode estar apenas no conceito da verdade, como imaginava Platão. Ou em um gesto, uma atitude, como acreditava Aristóteles. Ou, ainda, no perfeito equilíbrio das proporções e na impecável ordem da simetria, como a descreveu John Ruskin. Tanto faz. Para mim, tudo pode estar resumido, como ponto de partida, no dito popular de "quem ama o feio, bonito lhe parece". A câmera fotográfica é apenas o instrumento que registra o que meus olhos querem ver.
E é a generosidade do olhar e a serenidade do espírito que me ajudam a contemplar o mundo. O cineasta alemão Wim Wenders fez questão de escrever na abertura de Asas do Desejo, filme em que narra a disputa entre o efêmero e o divino, algumas linhas do Novo Testamento: "A luz do corpo é o olhar. Se o olhar for limpo, o corpo inteiro estará cheio de luz. Mas se o olhar for mau, o corpo inteiro estará cheio de escuridão." (Matheus, 6,22).
É a câmera que me ajuda a entender a beleza do mundo, seja nas paisagens, seja nos traços dos rostos das pessoas que fotografo e que são, como disse o lendário fotógrafo Richard Avedon, uma espécie de mapa-múndi da vida no coração de cada um.
Retirado da revista Tam nas Nuvens, ed 19, pág. 69. Julho 2009.
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