domingo, 13 de dezembro de 2009

O que é ser belo, por J.R. Duran

Algumas pessoas, passam, hoje em dia, uma grande quantidade de seu tempo na busca do equilíbrio interior. Seja entre as páginas dos títulos de autoajuda de qualquer livraria - os primeiros nas listas dos livros mais vendidos, sempre - seja por outros meios menos em conta, que podem incluir a visita a um terapeuta ou algumas aulas semanais de ioga.
O que me ajuda a descobrir os meus limites, os meus sonhos, e paradoxo visual, a realidade do mundo que nos cerca, é a fotografia. Isto pode acontecer dentro de um estúdio, na aparente limitação de um fundo infinito, ou em locações nos lugares mais distantes possíveis, na busca do fugaz equilíbrio que determina a beleza de uma imagem. É uma procura constante que me faz acordar, todos os dias, sentindo a mesma emoção da primeira foto que fiz, muitos anos atrás.
A beleza é fugaz, frágil. Às vezes, tênue como a passagem de um anjo, ou de um beijo, só descoberta depois que o instante aconteceu, visível em um fragmento de segundo apenas por quem acredita nela. Por quem a procura. Há quem diga que ela pode estar apenas no conceito da verdade, como imaginava Platão. Ou em um gesto, uma atitude, como acreditava Aristóteles. Ou, ainda, no perfeito equilíbrio das proporções e na impecável ordem da simetria, como a descreveu John Ruskin. Tanto faz. Para mim, tudo pode estar resumido, como ponto de partida, no dito popular de "quem ama o feio, bonito lhe parece". A câmera fotográfica é apenas o instrumento que registra o que meus olhos querem ver.
E é a generosidade do olhar e a serenidade do espírito que me ajudam a contemplar o mundo. O cineasta alemão Wim Wenders fez questão de escrever na abertura de Asas do Desejo, filme em que narra a disputa entre o efêmero e o divino, algumas linhas do Novo Testamento: "A luz do corpo é o olhar. Se o olhar for limpo, o corpo inteiro estará cheio de luz. Mas se o olhar for mau, o corpo inteiro estará cheio de escuridão." (Matheus, 6,22).
É a câmera que me ajuda a entender a beleza do mundo, seja nas paisagens, seja nos traços dos rostos das pessoas que fotografo e que são, como disse o lendário fotógrafo Richard Avedon, uma espécie de mapa-múndi da vida no coração de cada um.

Retirado da revista Tam nas Nuvens, ed 19, pág. 69. Julho 2009.

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